Fôlego

Passávamos o fim do Verão na quinta dos avós. Os dias acabavam com um banho revigorante, depois de ficarmos pretos, com aquela sujidade entranhada de onde só luziam olhos pequenos, de gente pequena. A mesma pele pouco antes dourada, reflexo das searas onde dezenas de aventuras tinham lugar.
Os putos traquinas da cidade travavam conhecimento com os filhos dos caseiros e jornaleiros, hábeis e mais preparados. Sabiam como funcionava o mundo e as suas estações, o nome dos pássaros e flores. Como nasciam os vitelos e como as sementes abriam caminho terra acima. Passeávamos no carro de bois com o resto dos miúdos e tomávamos banho na Presa grande, ao lado de rãs. Vezes sem conta construí arcos e flecha, em busca de duelos mortais e resgates de donzelas em perigo sempre com o Lord a arfar e a abanar o rabo.
Lembro-me da Sofia, cabelo escuro, aquele ar vivaço cheio de vontade de me mostrar tudo o que conhecia. Mesmo as coisas de que tinha mais medo como o grito do porco, as tocas dos lobos ou até casas onde viviam velhas bruxas.
Trepávamos a árvores enormes para avistar o nosso domínio. Nesse dia, o pai veio buscá-la por um braço. No dia seguinte soube que tinha sido sovada, talvez por recearem que não fôssemos de fiar. Não a voltei a ver.
E aos 10 anos percebi que não há mal nenhum que parta da inocência. Porque a culpa é um fardo demasiado transmissível.

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